Novas áreas experimentais fortalecem o cultivo de abacaxi e de mandioca no semiárido baiano
O Distrito Agrotecnológico (DAT) de Boa Vista do Tupim, na Bahia, ganhou em março de 2026 duas novas áreas de estudo voltadas à agricultura familiar do semiárido. A ação integra o projeto Semear Digital e se divide em duas frentes: uma unidade demonstrativa irrigada de abacaxi e um campo de multiplicação dedicado à produção de matrizes de mandioca/ aipim adaptadas à região.
Antes da implantação dessas áreas, os pesquisadores avaliaram o balanço hídrico da região, que revelou uma precipitação média anual de apenas 669 milímetros, enquanto a perda de água por evaporação e transpiração das plantas gera um déficit anual de 605 milímetros — ou seja, não há excedente de água indicando a necessidade de reposição de água para o desenvolvimento das culturas. “O desenvolvimento da agricultura no semiárido depende do uso de tecnologia de irrigação”, resume Jane Silveira, pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC-APTA) e responsável pela unidade demonstrativa irrigada de abacaxi.
Com o diagnóstico em mãos, a equipe percorreu assentamentos rurais para entender como os produtores manejam a água e os sistemas de irrigação existentes. “Ao lado de um dos assentamentos rurais importantes para esse município, passa o Rio Paraguaçu com quase 90 quilômetros de um recurso hídrico disponível para esses produtores rurais”, aponta a pesquisadora, “por isso achamos importante implantar uma unidade demonstrativa para que pudéssemos treinar esses produtores sobre as melhores práticas de irrigação”.

A etapa de aprendizagem iniciou-se pela palestra e pelo dia de campo sobre irrigação ministrado pelo professor Otávio Neto da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, de Vitória da Conquista (BA), apresentando detalhes sobre a instalação, manejo e funcionamento do sistema de irrigação. “Essa área será o berço dos estudos de irrigação digital para esse DAT com uso de imagens termográficas para avaliação do comportamento das cultivares de abacaxi quanto ao estresse hídrico e uso eficiente da água”, ressalta a pesquisadora.
A unidade demonstrativa foi dividida em cinco blocos e quatro cultivares de abacaxi com potencial produtivo e adaptação às condições locais: BRS Diamante, BRS Imperial, BRS Sol Bahia e Pérola. O sistema escolhido foi o de irrigação localizada por gotejamento, com alimentação de água por gravidade, sem necessidade de energia elétrica para distribuir água no sistema. Para a consolidação do aprendizado teórico, cerca de 50 produtores participaram da montagem do kit de irrigação no campo.
A outra área implantada no DAT tem como foco o cultivo de mandioca. “Essa área também é irrigada pelo mesmo sistema demonstrado no abacaxi, mas o foco é a produção de material propagativo com variedades adaptadas ao semiárido”, explica Francine de Camargo Procópio, pesquisadora do Semear Digital e da ESALQ/USP. Ao todo, nove variedades foram selecionadas: seis já cultivadas localmente (Manteiga; NP; Todo Tempo; Peixe; Bom Do Mundo; Pé de Galinha) e três desenvolvidas pela Embrapa (BRS 429; BRS 420; BRS 399).
“Nosso interesse é ver quais materiais genéticos se desenvolvem melhor, quais tem a melhor comercialização e, a partir disso, aumentar o plantio desse material na região”, ressalta a pesquisadora. Assim, os agricultores locais terão acesso a mudas de qualidade e mais alinhadas à realidade climática local.
A implantação das duas áreas contou com a parceria de pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura e com o apoio da Netafim, empresa especializada em irrigação localizada.
Érica Speglich
Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
Embrapa Agricultura Digital
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