O objetivo do projeto é superar as desigualdades no campo a partir de pesquisa, desenvolvimento, inovação (PD&I) em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) visando ampliar a produção e produtividade dos pequenos e médios produtores.

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7 de maio de 2026

Irrigação inteligente avança nos DATs para otimizar o uso da água

Uma metodologia consolidada na literatura científica para monitorar o estresse hídrico das plantas está ganhando escala e novas aplicações no âmbito do Semear Digital. Desenvolvida inicialmente em experimentos com feijão no Instituto Agronômico (IAC), em Campinas (SP), a abordagem vem sendo adaptada para diferentes culturas e condições produtivas nos Distritos Agrotecnológicos (DATs), com destaque recente para as videiras em São Miguel Arcanjo (SP) e, em fase inicial, para o abacaxi em Boa Vista do Tupim (BA).

A base conceitual do trabalho foi publicada na revista Bragantia, na qual se discute o aprimoramento do índice de estresse hídrico da cultura (em inglês, Crop Water Stress Index – CWSI), um índice que quantifica o nível de estresse hídrico da planta a partir da diferença entre a temperatura da copa e a temperatura do ar. O método, já amplamente utilizado, foi refinado em um estudo conduzido no IAC com feijoeiro, que buscou adaptar a técnica para condições de baixa cobertura vegetal, situação comum nas fases iniciais do cultivo.

Nesse experimento, realizado em dois ciclos produtivos, os pesquisadores desenvolveram procedimentos para estimar com mais precisão a temperatura da copa, considerando interferências como a palhada no solo. O trabalho também demonstrou uma relação clara entre o índice CWSI e o teor de água no solo, validando o uso do índice como ferramenta para o manejo da irrigação.

“Esse estudo foi fundamental para validar a metodologia que depois seria levada aos DATs”, explica a pesquisadora Jane Silveira, do IAC e do Semear Digital. A partir dessa etapa inicial, a equipe avançou para aplicações em campo, em sistemas produtivos reais.

Videiras como laboratório de inovação

No DAT de São Miguel Arcanjo (SP), a metodologia foi aplicada à cultura da uva fina de mesa, de alto valor econômico na região. O experimento comparou áreas irrigadas e não irrigadas, com monitoramento contínuo por sensores de solo, estação meteorológica e termômetros infravermelhos posicionados a 0,5 m acima da copa das plantas.

Os dados foram coletados em tempo real ao longo de todo o ciclo produtivo, permitindo a construção de linhas de base do CWSI para diferentes estádios fenológicos da videira. O resultado foi uma caracterização detalhada de como o estresse hídrico varia ao longo do desenvolvimento da planta. Os resultados foram apresentados na defesa de Mestrado de Phillipe Marques, coorientado por Silveira no Programa de Pós-graduação em Agricultura Tropical e Subtropical do IAC.

Os efeitos foram mais evidentes na fase de floração e crescimento dos frutos, considerada crítica para a produtividade. Nas áreas não irrigadas, o estresse hídrico foi intenso durante grande parte do dia, enquanto nas áreas irrigadas as plantas mantiveram condições mais favoráveis.

Esse diferencial se refletiu diretamente na produção. Nas áreas irrigadas, a média foi de 37,7 cachos por planta, contra cerca de 26 cachos nas áreas sem irrigação, um aumento superior a 30%.

Além do ganho produtivo, o estudo trouxe evidências de maior eficiência no uso da água. Com o monitoramento em tempo real, foi possível ajustar a lâmina de irrigação às necessidades reais da planta, reduzindo o volume estimado de água aplicado em comparação a métodos baseados apenas em dados climáticos.

Decisão baseada em três pilares

Um dos avanços centrais do projeto é a integração de três dimensões no manejo da irrigação: planta, solo e clima. Em vez de decisões baseadas em apenas um desses fatores, o sistema combina dados de temperatura da copa, umidade do solo e variáveis meteorológicas.

Essa abordagem, chamada pela equipe de “irrigação inteligente”, permite recomendações mais precisas. Em determinadas situações, por exemplo, o solo pode apresentar baixa umidade, mas as condições climáticas e fisiológicas da planta indicam que a irrigação pode ser adiada sem prejuízo.

O sistema também considera o tipo de irrigação utilizado. Em São Miguel Arcanjo, o experimento foi conduzido com microaspersão, uma técnica de baixa vazão que exige aplicações mais frequentes e com menor volume de água, favorecendo a eficiência do uso da água.

A etapa atual da pesquisa busca ampliar a escala do monitoramento. Em vez de sensores pontuais, a equipe

pretende utilizar câmeras térmicas (como a tecnologia FLIR) para capturar a temperatura da copa em áreas maiores. Isso possibilitará a aplicação do sensoriamento remoto proximal para obtenção do CWSI. Esse estudo terá a participação do pós-doutorando do IAC, Anderson de Jesus Pereira junto ao projeto Semear Digital

Essa transição permitirá mapear o estresse hídrico em toda a lavoura, abrindo caminho para aplicações com drones e, futuramente, satélites. A expectativa é transformar a metodologia em uma ferramenta operacional de apoio à decisão para produtores.

Expansão para o semiárido

Irrigação implantada na área demonstrativa de abacaxi em Boa Vista do Tupim (BA). Foto: Anderson Pereira.

O próximo DAT a receber a tecnologia é o de Boa Vista do Tupim, na Bahia, onde foi implantada uma unidade demonstrativa de irrigação para a cultura do abacaxi.

A região, inserida no semiárido, apresenta alta demanda hídrica, o que torna o manejo eficiente da irrigação ainda mais estratégico. No local, o experimento inclui diferentes materiais genéticos de abacaxi e um delineamento experimental estruturado, com o objetivo de validar o uso do CWSI em novas condições de solo e clima.

A proposta é replicar o modelo testado em São Miguel Arcanjo, incorporando já o uso de imagens térmicas como ferramenta de monitoramento.

“Nosso objetivo é tornar a irrigação mais eficiente, baseada em evidências e adaptada à realidade de cada sistema produtivo”, resume Jane Silveira.

Paula Drummond

Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
Embrapa Agricultura Digital

Contatos para a imprensa: agricultura-digital.imprensa@embrapa.br

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