Método usa DNA ambiental para medir biodiversidade em propriedades rurais da Mata Atlântica
Pesquisadoras do projeto Semear Digital estão testando uma técnica integrada, eficiente e pouco invasiva de monitoramento da biodiversidade em áreas da Mata Atlântica, o uso do DNA ambiental (eDNA). A metodologia analisa o material genético presente no ambiente, permitindo detectar vestígios de animais e plantas, além de fungos e microrganismos presentes nas próprias amostras ambientais, a partir de pequenas quantidades de material coletado. O objetivo da pesquisa é construir métricas de acompanhamento da vida silvestre que possam, no futuro, subsidiar políticas de pagamento por serviços ambientais aos produtores que conservam a vegetação nativa.
A pesquisa é realizada em parceria com a empresa C3 Ambiental, dentro do programa Floresta & Carbono. A primeira campanha de coleta ocorreu entre 23 e 27 de março de 2026 na região do Distrito Agrotecnológico (DAT) de Lagoinha (SP) e novas campanhas também devem acontecer no DAT de Jacupiranga (SP). Foram recolhidas 54 amostras de solo em 18 pontos de cinco propriedades da região, além de teias de aranha, que possuem grande capacidade de reter DNA ambiental de diferentes grupos biológicos.
A análise do material será realizada pela EcoMol, empresa parceira que realizou a capacitação e padronização das coletas em campo. Além das análises laboratoriais, a etapa de coleta é considerada fundamental para garantir a qualidade e a confiabilidade dos resultados. Para a caracterização das amostras ambientais, serão utilizados seis marcadores moleculares: um para vertebrados em geral, outro específico para mamíferos, um terceiro voltado para invertebrados, com atenção especial a abelhas e outros polinizadores, além de marcadores destinados à detecção de bactérias, fungos e plantas. As pesquisadoras apostam que o conjunto de marcadores oferecerá uma visão abrangente dos serviços ecossistêmicos associados à vegetação nativa, incluindo polinização, ciclagem de nutrientes e saúde do solo, entre outros
Segundo Debora Drucker, da Embrapa Agricultura Digital e coordenadora da pesquisa, o eDNA simplifica radicalmente o trabalho de campo. “As técnicas tradicionais de monitoramento são muito mais custosas e complexas, exigindo equipes numerosas e muitas horas de especialistas”, compara a pesquisadora, “a abordagem pelo eDNA dispensa capturas e observação direta; basta recolher amostras de solo, água, sedimento ou teias de aranha”.

Em laboratório, o DNA é extraído, regiões específicas são amplificadas e sequenciadas, e a identificação das espécies ocorre por comparação com bancos de dados de referência. Isso faz com que essa metodologia seja expandida com mais facilidade do que as abordagens tradicionais e, por esse motivo, tem potencial de viabilizar o mapeamento da biodiversidade em larga escala, um dos requisitos para a construção de políticas de incentivos ambientais.
Atualmente, o mercado de carbono é o mecanismo de remuneração mais conhecido para incentivar a manutenção da vegetação nativa. No entanto, os padrões de certificação de carbono vêm incorporando como cobenefícios as métricas de monitoramento da biodiversidade, buscando demonstrar que os projetos geram impactos positivos não apenas para o clima, mas também para a manutenção dos serviços ecossistêmicos. Nesse contexto, a proposta da pesquisa é justamente contribuir, do ponto de vista científico, para a construção dessas métricas de biodiversidade por meio do DNA ambiental.
Unindo pequenas e médias propriedades para atingir escala
O mercado de carbono, no entanto, nem sempre é acessível às pequenas e médias propriedades rurais, que podem não atingir escala suficiente para viabilizar sozinhas um projeto de crédito. “A empresa C3 Ambiental trouxe para esse projeto a experiência de reunir pequenos e médios produtores que querem manter a floresta em pé e ser remunerados por isso”, relata Debora Drucker.
“Acreditamos que os produtores rurais que conservam florestas precisam ser reconhecidos pelos serviços ambientais que prestam. Em parceria com o Semear Digital buscamos desenvolver métricas robustas de biodiversidade capazes de agregar valor à floresta em pé e, com isso, ampliar os incentivos para sua proteção”, afirma Vanessa Suguiyama, da C3 Ambiental.
Embora o monitoramento por eDNA ainda envolva tecnologia especializada, a expectativa das pesquisadoras é de que, com o avanço dos bancos de referência genéticos e a ampliação do uso da técnica, as análises ganhem escala e eficiência e levem à popularização da tecnologia. “Essas tecnologias tendem a se tornar mais viáveis com o tempo”, projeta Debora Drucker, “quando isso ocorrer, a técnica poderá se tornar uma ferramenta de rotina para avaliar a biodiversidade em propriedades rurais, destravando incentivos econômicos ligados ao pagamento por serviços ambientais”.
A aplicação do eDNA também pode ampliar a compreensão sobre o papel dos fragmentos florestais na manutenção da biodiversidade em paisagens rurais. A técnica permite a identificação e quantificação padronizada de diferentes grupos de animais, plantas e microorganismos, gerando dados que podem oferecer suporte técnico para a criação de mecanismos mais justos e eficientes de valorização ambiental, como os programas de pagamento por serviços ambientais e o emergente mercado de créditos de biodiversidade.
Érica Speglich
Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
Embrapa Agricultura Digital
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