Estudo analisa os sistemas de rastreabilidade da cadeia de carne brasileira
A pesquisa também sugere caminhos para a inclusão de pequenos e médios agricultores nos sistemas de certificação de rastreabilidade
A pecuária brasileira, de grande importância econômica e social, também carrega desafios ambientais significativos, como as emissões de metano e a pressão da atividade sobre o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Neste contexto, a rastreabilidade é vista como peça-chave, garantindo transparência aos processos e adesão às regulamentações ambientais. Um estudo publicado na revista Challenges, Journal of Planetary Health propõe enxergar os sistemas de rastreabilidade da carne bovina brasileira não como ferramentas de controle, mas como mecanismos que atuam como infraestruturas de governança relacional conectando frigoríficos, protocolos de sustentabilidade e mercados importadores.
“Os sistemas de rastreabilidade vão além do mero cumprimento de regras, essas infraestruturas refletem o propósito compartilhado da cadeia de produção, a confiança institucional e as capacidades coletivas de resolução de problemas”, explica o autor, Ivan Bergier, da Embrapa Agricultura Digital. Para compreender essa arquitetura complexa, o autor utilizou a ciência de redes para analisar a Plataforma AgriTrace Animal, mantida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Foram cruzados dados de 128 frigoríficos habilitados para exportação, 11 protocolos de certificação da plataforma (cada um com critérios específicos de raça, acabamento de carcaça e idade do animal) e 61 países importadores.
Redes de confiança e a lógica da “coopetição”
A análise dos dados mostrou a existência de seis agrupamentos distintos de frigoríficos. Dois desses grupos concentram 84% das plantas frigoríficas, formados em geral por empresas de grande porte que se organizam em torno de protocolos amplamente adotados para manter escala e legitimidade. Os outros quatro refletem atividades menores e mais periféricas, caracterizadas por nichos de inovação que apostam em certificações específicas, como carne orgânica, de baixo carbono ou de raças valorizadas.
“Esta estrutura da rede mostra a capacidade da cadeia da carne de equilibrar eficiência com experimentação, abordando tanto as demandas atuais quanto as futuras mudanças de mercado. A análise também revela que a governança da rastreabilidade não é geograficamente neutra, ela reflete redes localizadas de confiança, aprendizado e coordenação”, explica o autor. Uma dinâmica chamada de “coopetição”, um modelo estratégico no qual empresas que atuam no mesmo mercado unem esforços em determinadas áreas para gerar benefícios comuns sem abrir mão da concorrência em seus negócios individuais. “Ao mesmo tempo que há competição entre esses frigoríficos, eles também podem se associar em torno de protocolos para ganhar vantagem. Os grandes dominam, mas os outros podem ajudar a inovar. É uma cooperação e, ao mesmo tempo, uma competição em torno de um ideal comum, que é exportar uma carne que segue um protocolo para atingir um nicho diferente de mercado”, explica Bergier.
Outro mapa criado a partir dos dados da pesquisa conecta os 61 países importadores, ligados entre si por comprarem de frigoríficos que compartilham os mesmos protocolos e revela a existência de eixos de mercado. Hong Kong, Singapura, Canadá e Egito, que atuam como conectores críticos e, em posição periférica, mercados mais rigorosos, como os da União Europeia e Oceania. Para o autor, essa configuração é moldada tanto pela demanda de mercado quanto por barreiras políticas como as regulações europeias que restringem a compra de carne apenas a produtos livres de desmatamento.
O trabalho conclui que a rastreabilidade deve ser reconhecida não apenas como uma infraestrutura de dados, mas como uma infraestrutura ética. Trata-se de uma plataforma que traduz ideais abstratos de sustentabilidade em práticas verificáveis, alinhadas a valores e territórios específicos e que depende da qualidade das relações dentro das redes, através das fronteiras e entre as pessoas para enfrentar desafios interconectados como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e segurança alimentar.
Pesquisa busca incluir pequenos produtores nos benefícios da certificação
A pesquisa faz parte do projeto Semear Digital, cujo objetivo é superar as desigualdades no campo a partir de pesquisa, desenvolvimento e inovação de soluções de agricultura digital buscando ampliar a produção e a produtividade dos pequenos e médios produtores rurais. “A produção pecuária no Brasil é raramente feita com o ciclo completo em uma mesma propriedade. Em geral temos o ciclo de reprodução (cria) e de desenvolvimento inicial (recria) feitos em propriedades menores e menos tecnológicas, que são o público-alvo do Semear Digital. E é exatamente esse público que acaba não acessando os benefícios dos sistemas de rastreabilidade, que se concentram nas propriedades dedicadas à engorda e aos frigoríficos”, explica Bergier.
O pesquisador destaca que a análise realizada no artigo mostra a importância de fortalecer um movimento de “coopetição” que envolva, também, os produtores ligados aos ciclos iniciais da produção pecuária. “Nós identificamos que a confiança entre os envolvidos é essencial e que a ‘coopetição’ pode se dar em torno de um ideal comum como, por exemplo, exportar uma carne que siga um protocolo específico para atingir um nicho diferente de mercado”, explica o autor, “esses nichos costumam ser pequenos e são atendidos por propriedades menores, com produtos de alto valor agregado e com diferenciais como indicações geográficas de origem, por exemplo”.
Para o autor é preciso criar movimentos facilitadores dessa “coopetição” por meio de estratégias como a certificação em grupo para pequenas propriedades, parcerias público-privadas, uso de ferramentas digitais de baixo custo (como celulares), criação de cooperativas e políticas públicas que criem caminhos de entrada simplificados e subsidiados para inclusão progressiva dos pequenos e médios produtores rurais nesses sistemas. “Do ponto de vista da rastreabilidade, é desta forma que vamos atingir mercados mais interessantes e, ao mesmo tempo, ter uma produção realmente sustentável”, conclui Bergier.
Acesse o artigo completo em:
Bergier, I. Relational Infrastructures for Planetary Health: Network Governance and Inner Development in Brazil’s Traceable Beef Export System. Challenges 2025, 16, 48. https://doi.org/10.3390/challe16040048
Érica Speglich
Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
Embrapa Agricultura Digital
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