Estudo avalia pontos essenciais para o compartilhamento de dados por produtores rurais
Confiança, políticas públicas e incentivos de mercado são fundamentais para criar ambiente seguro e transparente e impulsionar a adaptação climática
A agricultura e a pecuária estão passando por uma transformação digital, impulsionada pela agricultura de precisão e pela análise de dados para enfrentar os desafios climáticos. Neste contexto, plataformas digitais que coletam dados das propriedades rurais são ferramentas poderosas para avaliar riscos, oportunidades e impactos para orientar atividades, negócios e investimentos sustentáveis. Mas seu sucesso esbarra em uma questão sensível: a segurança das informações e a transparência sobre seus usos. Pesquisadores do projeto Semear Digital avaliaram os desafios e as oportunidades para se construir um ambiente de compartilhamento de dados sustentável, seguro e transparente para relatórios ESG (ambiental, social e governança) para a agricultura e a pecuária. A pesquisa foi publicada na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, como parte de um grupo de artigos que teve como objetivo embasar discussões para a COP30.
“Alinhar os relatórios ESG com a transformação digital da agricultura e da pecuária tornou-se uma prioridade estratégica”, explicam os autores, “os relatórios ESG enfatizam a gestão ambiental, a equidade social e a governança transparente, enquanto as plataformas digitais podem facilitar a adoção por meio da coleta, análise e compartilhamento de dados sobre o manejo da propriedade, aplicativos, sensores e máquinas relacionados à gestão agrícola, cadeias de suprimentos e certificações”.
Os pesquisadores procuraram compreender o que leva produtores rurais a compartilharem ou não seus dados, e qual o papel da demanda do consumidor por produtos rastreáveis nesse processo. Para isso, analisaram a literatura científica já publicada sobre privacidade e segurança de dados em plataformas digitais ESG voltadas para a agricultura e a pecuária. Foram avaliados 688 artigos publicados entre 2014 e 2024 e o mapeamento revelou que as análises se concentram em cinco áreas principais: privacidade e segurança dos dados, políticas públicas, transparência, práticas sustentáveis e fatores tecnológicos e econômicos.
“Agricultores e agroindústrias reconhecem riscos de violações de dados, acesso não autorizado e uso indevido”, destaca o estudo, além disso, há o medo de perder vantagem competitiva ao revelar detalhes sobre suas operações. Nesse contexto, a adesão à legislação específica, como a Lei Geral de Proteção de Dados no Brasil, é fundamental. A organização dos produtores em cooperativas também é vista como um caminho promissor, pois fortalece sua capacidade de negociar e participar coletivamente das plataformas digitais. “Os resultados mostram que salvaguardas tecnológicas, marcos regulatórios e incentivos de mercado são vitais para gerar confiança, participação e transparência”, apontam os pesquisadores. Ou seja, não basta ter a tecnologia, é preciso criar um ambiente onde o produtor rural se sinta seguro pois, como reforçado nas análises dos estudos já publicados, a efetividade dessas plataformas depende diretamente da disposição dos produtores rurais em fornecer informações.
Do outro lado, as análises demonstraram que os consumidores mostram interesse ao buscar informações sobre a origem do produto e estão dispostos a pagar mais por itens com credenciais socioambientais comprovadas. Porém, a perda de dados pessoais é algo que preocupa cada vez mais as pessoas. “A privacidade e a segurança dos dados não são apenas imperativos legais e éticos, mas também requisitos estratégicos para a confiança e a participação no compartilhamento de dados”, ressaltam os autores.
Iniciativas como o projeto Semear Digital, que leva inovação para Distritos Agrotecnológicos em diferentes biomas brasileiros, trabalham nessa frente. O objetivo é usar a tecnologia para aumentar a resiliência dos agricultores, especialmente os de pequeno e médio porte, diante das mudanças do clima.
O estudo reforça que o sucesso desta transição digital na agropecuária sustentável não depende apenas do mercado e que a ação governamental, com políticas e regulações claras, é um complemento necessário para criar as condições ideais. A construção de um sistema transparente requer a integração de estratégias que envolvem tecnologia, aspectos sociais e um marco regulatório adequado. “Uma ampla adoção de tecnologias é necessária para fortalecer a resiliência e a capacidade adaptativa em sistemas agropecuários para enfrentar a mudança climática.”, conclui a pesquisa.
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BERGIER, I.; BOLFE, É.L.; DRUCKER, D.P.; INAMASU, R.Y.; SANTOS, P.M.; ABREU, U.G.P. de; SILVA, T.L. da; CARVALHO, F. de F.; ROMANI, L.A.S.; BARBEDO, J.G.A.; MASSRUHÁ, S.M.F.S. Data reporting in agri- food platforms: sharing, privacy, consumer demands, and public policies. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.60, e04113, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/S1678-3921.pab2025.v60.04113
Érica Speglich
Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
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