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23 de September de 2026

Estudo avalia impacto do clima na produtividade do café e valida modelo para previsão de safra

Pesquisa analisou dados de 14 anos na região de Poços de Caldas e pode ajudar a orientar estratégias para tornar a produção mais resiliente à variabilidade climática.

A produção de café é fortemente influenciada pelo clima, especialmente pela temperatura e pela disponibilidade de água. Na região vulcânica de Poços de Caldas (MG), uma área tradicional de cultivo de café arábica, pesquisadores investigaram como as variações climáticas afetam a produtividade de três cultivares ao longo das diferentes fases de desenvolvimento da planta. O estudo, que faz parte do projeto Semear Digital, analisou dados de 2011 a 2024 e validou um modelo para estimar o rendimento da safra a partir de informações meteorológicas. As informações podem auxiliar na tomada de decisão, previsão de preços, formulação de políticas e planejamento estratégico dos produtores de café.

“Eu sou pesquisador e produtor de café”, explica um dos autores do trabalho, Marcus Vinicius Oliveira Noronha (ESALQ), “e durante o meu mestrado me deparei com o questionamento sobre como fazer uma pesquisa sobre o café e seu rendimento, sem ter dados detalhados”. A solução veio a partir de diversas conversas com outros pesquisadores e produtores de café e combinação de duas fontes de informação: os dados públicos de produtividade do IBGE para a região e os registros detalhados de uma fazenda em Caconde, no interior de São Paulo, que mantém contagens de produção desde 2011. Os pesquisadores também utilizaram dados de estações meteorológicas automáticas próximas à área de estudo, cobrindo um período de 16 anos, de 2009 a 2024. Esse recorte temporal mais amplo foi necessário para incluir as condições climáticas dos dois anos que antecedem cada colheita, já que este é o tempo do ciclo completo do café.

Os cientistas dividiram o ciclo do cafeeiro em quatro fases principais: crescimento vegetativo e formação de botões foliares, indução e maturação dos botões florais, floração e expansão dos frutos, e enchimento dos grãos. Para cada fase, foram calculadas correlações entre a produtividade e variáveis como temperatura máxima, média e mínima, umidade relativa do ar, precipitação, velocidade do vento e soma térmica, que é o acúmulo de calor ao longo do tempo. Além disso, a equipe buscou detectar tendências de mudança no clima ao longo dos anos, para avaliar se as temperaturas estavam subindo ou caindo em meses específicos, e como isso poderia afetar as diferentes etapas do desenvolvimento da planta.

“Os resultados mostraram que, na fase de enchimento dos grãos, a planta é mais sensível, mais suscetível às variações de temperatura”, explica Noronha, “quando as temperaturas máximas ultrapassam determinados patamares durante esse período, a produtividade tende a cair de forma mais acentuada do que em outras fases”. Ainda que este seja o ponto mais sensível, as maiores alterações climáticas ao longo dos anos ocorreram durante o período de floração na região, entre os meses de agosto, setembro e outubro.

“O clima está prejudicando mais a floração do café, que ocorre na transição do inverno para a primavera, um momento em que a planta já está sob estresse hídrico e térmico. Com o aumento da temperatura, a evaporação de água do solo e das folhas se intensifica, agravando o estresse”, reforça o pesquisador. O resultado direto é a perda de botões florais, o que compromete a produção antes mesmo de os frutos se formarem, “isso resulta em uma perda significativa na produtividade”, afirma Noronha.

Uso prático da ferramenta

A validação do modelo agrometeorológico trouxe resultados importantes para o uso prático da ferramenta. Em escala regional, o modelo apresentou bom desempenho e consegue estimar a produtividade com boa precisão. Em escala local, porém, o desempenho foi mais limitado. “A explicação está na variabilidade dos dados, que é muito grande na escala local”, explica Noronha, “por isso o nosso modelo tem melhor previsibilidade na escala regional, para a qual pode indicar caminhos para os produtores”.

O acesso ao modelo é feito, por enquanto, por meio de uma planilha que permite a inserção dos dados de produtividade da propriedade e as informações meteorológicas do período. A planilha calcula automaticamente a produtividade esperada e o resultado pode ser usado para tomada de decisão, previsão de preços, formulação de políticas e planejamento estratégico dos produtores de café.

A equipe trabalha, agora, em um modelo de adubação que leve em conta a variabilidade climática. A ideia é usar dados de produtividade, crescimento e clima coletados desde 2016 em regiões do Sudeste e da Alta Mogiana para orientar a aplicação de nitrogênio e potássio. “Se o modelo indicar a baixa produtividade por conta de um déficit hídrico ou de uma alta temperatura, você pode tomar decisões relativas à adubação que economizem recursos”, exemplifica o pesquisador. O próximo passo, segundo Noronha, é automatizar e transformar tudo em um aplicativo acessível, nas mãos do produtor de café.

O artigo completo pode ser acessado em: Noronha, M. V. O., Silva, J. P., Plachi, M. A., Santana, D. M., Umburanas, R. C., Favarin, J. L., Romani, L. A. S., Massruhá, S. M. F. S., & Dourado Neto, D. (2026). Thermal sensitivity and yield of Arabica coffee under climatic variability. Agronomy Journal, 118, e70458. https://doi.org/10.1002/agj2.70458

Érica Speglich (MTb 0100674/SP)

Graziella Galinari (MTb 3863/PR)

Embrapa Digital Agriculture

Press inquires: agricultura-digital.imprensa@embrapa.br

Translation: Maria Rita Andreozzi, supervised by Mariana Medeiros (13044/DF) Embrapa's press office.

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