Agricultura regenerativa e tecnologias digitais podem impulsionar sistemas produtivos mais resilientes
A agricultura regenerativa tem ganhado espaço nos debates sobre produção sustentável e adaptação às mudanças climáticas. Durante o III Workshop do Semear Digital, realizado na Embrapa Agricultura Digital em Campinas (SP), de 20 a 22 de maio, o tema foi discutido em um painel online com os pesquisadores Ermias Kebreab, da Universidade da Califórnia em Davis, e Fedro Zazueta, da Universidade da Flórida, integrantes do Conselho Consultivo Internacional do projeto.
As apresentações mostraram que a agricultura regenerativa não corresponde a um conjunto único de técnicas, mas a uma abordagem baseada na saúde do solo, na diversidade biológica, na reciclagem de nutrientes e na integração entre diferentes componentes dos sistemas produtivos. Segundo os especialistas, o objetivo é tornar a agricultura mais resiliente diante das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se mantém a produtividade e a viabilidade econômica das propriedades rurais.
Kebreab destacou que os solos representam um dos maiores reservatórios de carbono do planeta e que práticas como plantio de cobertura, redução do revolvimento do solo, integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroflorestais podem contribuir para aumentar o estoque de carbono e melhorar a qualidade ambiental das áreas produtivas. Ele ressaltou, porém, que os benefícios dependem de condições locais e que os resultados precisam ser medidos de forma rigorosa.
“O solo tem um enorme potencial para armazenar carbono, mas precisamos de melhores sistemas de monitoramento e verificação para garantir que esses ganhos sejam mantidos ao longo do tempo”, afirmou Kebreab.
Nesse contexto, as tecnologias digitais surgem como aliadas fundamentais. Sensoriamento remoto, inteligência artificial, sensores e modelos computacionais foram apontados como ferramentas capazes de ampliar a capacidade de monitorar indicadores ambientais e apoiar decisões de manejo.
Segundo Kebreab, a combinação entre sensoriamento remoto e inteligência artificial está tornando viável o acompanhamento de estoques de carbono em escala de propriedade rural, além de contribuir para avaliações mais precisas dos impactos ambientais dos sistemas produtivos.
Agricultura digital a serviço da regeneração
A relação entre agricultura regenerativa e agricultura digital foi um dos temas centrais do debate. Para Fedro Zazueta, tecnologias como sensores, robótica, inteligência artificial e monitoramento remoto podem aumentar a eficiência no uso da água, reduzir a aplicação de insumos e melhorar a tomada de decisão dos produtores.
No entanto, ele alertou que a tecnologia não deve ser vista como um fim em si mesma. “A tecnologia deve apoiar a inteligência ecológica, e não substituí-la. O desafio não é simplesmente digitalizar a agricultura industrial, mas integrar as tecnologias em sistemas resilientes e regenerativos”, destacou Zazueta.
“A tecnologia deve apoiar a inteligência ecológica, e não substituí-la. O desafio não é simplesmente digitalizar a agricultura industrial, mas integrar as tecnologias em sistemas resilientes e regenerativos”, Fedro Zazueta.
Em sua apresentação, Zazueta defendeu uma visão sistêmica da agricultura, baseada na compreensão das interações entre solo, água, biodiversidade, economia e sociedade. Segundo ele, sistemas agrícolas resilientes dependem da diversidade biológica, econômica e tecnológica, além da capacidade de adaptação contínua diante de cenários cada vez mais incertos.
Os palestrantes também apresentaram exemplos de tecnologias em desenvolvimento para apoiar a sustentabilidade da produção agropecuária. Entre elas estão ferramentas de inteligência artificial capazes de formular dietas para rebanhos que reduzem as emissões de metano e aumentam a produtividade, além de modelos espaciais para monitoramento de carbono e avaliação de impactos ambientais.
Pequenos e médios produtores no centro da transformação
Outro ponto destacado foi o papel estratégico dos pequenos e médios produtores rurais na transição para sistemas produtivos mais sustentáveis.
Kebreab observou que muitas comunidades agrícolas já adotam princípios regenerativos há décadas, especialmente em regiões da África, Ásia e América Latina. Segundo ele, o principal desafio não é convencer esses produtores sobre a importância da conservação dos recursos naturais, mas garantir acesso a investimentos, mercados e reconhecimento econômico pelos benefícios ambientais gerados.
Durante o debate, os especialistas ressaltaram que a adoção de novas práticas precisa gerar benefícios concretos para os agricultores. Mudanças que impliquem redução de renda, aumento de custos ou riscos excessivos tendem a ser abandonadas antes de alcançar escala.
“Os agricultores inovadores são os primeiros a testar novas abordagens. Se elas não funcionarem economicamente, dificilmente serão adotadas pelos demais produtores”, observou Zazueta.
Os participantes também defenderam que políticas públicas e mecanismos de financiamento devem remunerar resultados ambientais mensuráveis, como o aumento do carbono no solo e a redução de emissões, criando incentivos para ampliar a adoção dessas práticas.

Ciência, evidências e comunicação
Ao longo do painel, os especialistas reforçaram a necessidade de ampliar a base científica sobre agricultura regenerativa, evitando promessas exageradas e focando em evidências robustas.
Embora reconheçam o potencial da abordagem para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas, ambos destacaram que ela não representa uma solução única para os desafios ambientais globais. A regeneração dos sistemas produtivos deve ser combinada a avanços tecnológicos, políticas públicas, inovação e estratégias de adaptação.
A comunicação científica também foi apontada como um componente essencial desse processo. Para os participantes, produzir conhecimento de qualidade é tão importante quanto torná-lo compreensível para produtores, formuladores de políticas públicas e a sociedade.
A mensagem final do painel foi que agricultura regenerativa e agricultura digital não são caminhos concorrentes. Ao contrário, podem atuar de forma complementar na construção de sistemas agrícolas mais produtivos, resilientes e capazes de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Paula Drummond
Graziella Galinari (MTb 3863/PR)
Embrapa Agricultura Digital
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