Rastreabilidade digital pode melhorar a segurança e a qualidade do leite
Pesquisa do Semear Digital analisa 32 estudos sobre tecnologias digitais na cadeia leiteira e identifica oportunidades e desafios para pequenos produtores
Tecnologias como blockchain, internet das coisas e inteligência artificial podem tornar a cadeia produtiva do leite mais segura, transparente e eficiente, além de facilitar a certificação e o acesso a novos mercados. É o que aponta um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), no âmbito do projeto Semear Digital, que analisou 32 artigos científicos sobre rastreabilidade digital na cadeia leiteira. Publicada em setembro de 2026 na revista ReGeo, a pesquisa também identificou desafios para a adoção dessas tecnologias, especialmente entre pequenos e médios produtores rurais, como os custos de implantação, a conectividade limitada e a dificuldade de integração entre sistemas.
“O leite é um produto altamente perecível, e isso torna a rastreabilidade especialmente importante. É necessário acompanhar as condições de produção, armazenamento e transporte para garantir a qualidade e a segurança do alimento”, explica Fernanda Maciel, doutoranda em Administração, autora do estudo e bolsista da FAPESP.
Segundo Maciel, além das exigências sanitárias e regulatórias, a rastreabilidade responde a uma demanda crescente dos consumidores por informações sobre a origem dos alimentos e as condições em que são produzidos. Questões ambientais, como a procedência de áreas livres de desmatamento, também vêm ganhando importância. “Para o produtor, a rastreabilidade também pode representar um diferencial competitivo, agregando valor ao produto e facilitando o acesso a mercados mais exigentes”, destaca a pesquisadora.
Da propriedade rural ao consumidor
A rastreabilidade permite registrar e acompanhar as diferentes etapas percorridas por um produto, desde sua origem até a comercialização. Tradicionalmente, esse controle é realizado por meio de documentos, planilhas e registros manuais. Com a digitalização, parte dessas informações pode ser coletada automaticamente, compartilhada entre os diferentes participantes da cadeia e consultada em tempo real.
Entre as principais tecnologias identificadas estão a internet das coisas (IoT), que utiliza sensores para monitorar as condições de produção, armazenamento e transporte do leite; a blockchain, que permite registrar e compartilhar informações de forma segura e transparente ao longo da cadeia produtiva; e a inteligência artificial (IA), capaz de analisar dados para antecipar problemas, identificar padrões e otimizar processos. O estudo também destaca o uso de dispositivos de identificação por radiofrequência (RFID) para rastrear animais e produtos e de códigos QR para disponibilizar informações sobre a origem dos alimentos aos consumidores.
A revisão mostra que os benefícios dessas tecnologias não se limitam à segurança alimentar. Sistemas digitais de rastreabilidade também podem facilitar auditorias, apoiar processos de certificação, reduzir desperdícios e fortalecer a confiança entre os diferentes participantes da cadeia produtiva.
Desafios para a inclusão dos pequenos produtores
Apesar dos avanços, a adoção dessas tecnologias ainda está longe de ser uma realidade acessível a todos os produtores. A pesquisa identificou obstáculos técnicos, econômicos, sociais e institucionais que precisam ser superados para ampliar a rastreabilidade digital.
Entre os principais desafios estão a conectividade limitada em áreas rurais, os custos de aquisição e manutenção de equipamentos, a necessidade de capacitação e a dificuldade de integrar informações produzidas por diferentes plataformas.
Essa última questão, conhecida como interoperabilidade, é particularmente importante em uma cadeia produtiva que envolve propriedades rurais, transportadores, cooperativas, indústrias, distribuidores e órgãos de fiscalização. Para que a rastreabilidade funcione de maneira abrangente, os sistemas utilizados por esses diferentes agentes precisam conseguir compartilhar informações de forma confiável.
“A rastreabilidade é importante para pequenos, médios e grandes produtores. O desafio é pensar em como essas tecnologias podem chegar a todos eles, considerando as diferentes condições de produção e de acesso aos recursos digitais”, afirma Fernanda.
A análise também identificou lacunas importantes na produção científica. Embora a literatura internacional apresente experiências de aplicação dessas tecnologias, especialmente em contextos europeus e asiáticos, os pesquisadores não identificaram, entre os 32 trabalhos selecionados, estudos desenvolvidos especificamente sobre a realidade brasileira.
Para Fernanda, essa ausência reforça a necessidade de investigar como as tecnologias podem ser aplicadas às condições da produção agropecuária nacional, caracterizada por uma grande diversidade de propriedades e sistemas produtivos.
Os autores também apontam a necessidade de estudos que avaliem os custos e benefícios da rastreabilidade digital, a integração entre plataformas, as estratégias de inclusão dos pequenos produtores e a disposição dos consumidores em valorizar produtos com informações verificáveis sobre sua origem.
Paula Drummond MTb 0016596/DF – Projeto Semear Digital
Colaboração: Graziella Galinari (MTb 3863/PR) – Embrapa Agricultura Digital
Contatos para a imprensa: agricultura-digital.imprensa@embrapa.br


