(Da esq. para dir.) Amiraldo Santos recebeu os pesquisadores Ermias Kebreab, Fedro Zazueta, Douglas Morton e Mihai Datcu. Ageu Batista (à frente) fez demonstração da coleta do açaí. Foto: Paulo Henrique Leme.
Adoção de tecnologias digitais por comunidades marajoaras tem resultados positivos
A disseminação por meios digitais de metodologia de manejo de açaizais junto a comunidades tradicionais de Breves/PA representou avanços socioeconômicos e ambientais significativos. A transformação digital vivenciada pelos agricultores familiares foi conferida de perto por membros do Comitê Consultivo Internacional (CCI) do projeto Semear Digital em visitas realizadas entre os dias 15 e 17 de setembro.
O município mais populoso da Ilha do Marajó é o representante do Bioma Amazônico e um dos dez Distritos Agrotecnológicos (DATs) alcançados pelas ações do Centro de Ciências para o Desenvolvimento em Agricultura Digital – Semear Digital, financiado pela Fapesp e com a coordenação da Embrapa Agricultura Digital.
A extração do açaí assim como a captura de pescado têm predominado na formação de renda de subsistência das famílias ribeirinhas. Mas há dois anos, o cenário começou a mudar a partir da troca de conhecimentos com equipes de pesquisa sobre o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos e o uso de abelhas nativas na polinização.
Na comunidade de Jupatituba, os ribeirinhos tiveram acesso à plataforma web Infobee, com serviços e informações sobre meliponicultura – que recebeu recurso de voz para atender demanda da comunidade -, e ao aplicativo Manejatech-açaí, desenvolvidos pela Embrapa e parceiros.
“O contato direto com as comunidades permitiu ao Comitê compreender melhor como as tecnologias estão sendo incorporadas à realidade local e, a partir dessa experiência, contribuir com uma visão externa para o desenvolvimento das próximas etapas do Semear Digital”, afirma o pesquisador Édson Bolfe da Embrapa Agricultura Digital, que faz parte do Comitê Executivo do Semear Digital
Com o avanço do projeto, Michell da Costa, o ponto focal da Embrapa Amazônia Oriental em Breves, espera continuar desenvolvendo as atividades dos aplicativos e também incorporar novas tecnologias, como o uso do sensoriamento remoto para estudo da capacidade produtiva dos açaizais. A iniciativa envolvendo o mapeamento de açaizais por meio de drones está sob coordenação de Bolfe.

“A ideia é integrar os conhecimentos locais com tecnologias de sensoriamento remoto para mapear açaizais e identificar diferentes condições de manejo”, diz Bolfe. Com essas informações, será possível conhecer melhor a distribuição e as características produtivas para apoiar as famílias no planejamento do manejo e estimar a produção. “É um exemplo de como as tecnologias digitais podem ser adaptadas à realidade local e contribuir para uma agricultura mais eficiente e sustentável”, aponta.
Evolução – “Foi uma evolução exponencial”, disse Celso Vegro, da equipe do Instituto de Economia Agrícola (IEA) parceiro do Semear Digital, ao comparar a situação atual com a encontrada no começo das ações do projeto. O especialista voltou a entrevistar ribeirinhos para mensurar a economia familiar, a renda e a avaliação de impactos.
Os benefícios, adiantou o economista, vão além do aumento da produtividade dos açaizais – que triplicou na entressafra e teve incremento de até 30% com as abelhas nativas polinizadoras.
Houve ganhos com manutenção da biodiversidade, bem-estar social e em segurança alimentar, com a diversificação de cultivos alimentares e, ainda, a perspectiva de permanência dos jovens na comunidade, estimulados pelo uso de ferramentas digitais no gerenciamento da produção, antes feito em papel ou nem isso.

“Antes da capacitação para uso do aplicativo de manejo do açaí e das abelhas a gente produzia 20 latas por semana, agora são de 30 a 40 latas”, contou Liliane dos Santos Batista, jovem da comunidade ribeirinha de Santa Isabel no rio Jupatituba.
A transformação vivenciada pelos ribeirinhos pôde ser constatada pelos membros do Comitê Consultivo Internacional por meio do contato direto com a comunidade. Formado por cientistas reconhecidos internacionalmente, o Comitê tem entre suas atribuições acompanhar as atividades dos Centros de Desenvolvimento no âmbito da Fapesp, contribuir para a identificação de novas oportunidades de pesquisa e oferecer subsídios para o aprimoramento de suas estratégias científicas e tecnológicas.
A equipe da Embrapa Amazônia Oriental é responsável pela coordenação das atividades do projeto em Breves, atuando na implementação e no acompanhamento das iniciativas de transformação digital junto às comunidades. Para o chefe-geral Walkymario Lemos as tecnologias, quando adaptadas à realidade local e construídas junto com os produtores rurais, trazem benefícios concretos para a produção mais sustentável e para melhorar a qualidade de vida das famílias.

Foram cerca de oito horas de barco de Belém a Breves até a chegada à sede da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Rio Jupatituba, onde os ribeirinhos da comunidade receberam o CCI ao lado do presidente da entidade, Amiraldo de Souza Santos.
Visitaram a área de cultivo de hortaliças, conheceram a história e trajetória do açaí e obtiveram informações sobre tecnologias sociais da Embrapa, em implantação. E, ainda, sobre o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos em associação com a meliponicultura – detalhado por jovens usuários dos aplicativos como Liliane Batista e Rodrigo Lima, de 22 e 18 anos respectivamente.
Outra visita foi na Cooperativa da Agricultura Familiar Agroextrativista Regional (Cafar), instalada em área de terra firme. O presidente Luiz Silvério apresentou o histórico da Cafar aos membros do CCI, que visitaram áreas de produção de hortaliças e de mudas de açaí. Com cerca de 100 associados, a cooperativa também implantou tecnologias como o sisteminha Embrapa e a fossa séptica biodigestora.
O protagonismo feminino é destaque na cooperativa Cafar, que tem Vitória Albuquerque na diretoria financeira. O grupo de mulheres que trabalha no viveiro também implantou a cozinha Raízes Marajoaras, uma unidade de processamento de frutas, criando também um curso de benzedeiras e parteiras.
Impressões – “A transferência de conhecimento tecnológico foi feita de forma excepcional. É algo que deve ser reforçado e ampliado, pois é o que garantirá a sustentabilidade do projeto”, avaliou Mihai Datcu, pesquisador do Centro Aeroespacial Alemão. O membro do comitê – que até então só conhecia a Amazônia por meio de imagens de satélite – se disse impactado pelas “pessoas, que compreenderam a tecnologia e estão utilizando os produtos dela”.
Ermias Kebreab, diretor de ciência animal na Universidade da Califórnia/EUA, destacou como relevante o fato de as ferramentas digitais em adoção pelas comunidades ribeirinhas não dependerem de conexão constante com a internet. Ressaltou ainda a inclusão de recurso de voz ao sistema tira-dúvidas via WhatsApp, demandada por usuários não alfabetizados. “É preciso levar em conta o que os agricultores querem. Caso contrário, a solução não será adotada”, disse.
“Essas pessoas não têm estrada, não têm aeroporto e têm internet”, disse Fedro Zazueta, professor emérito da Universidade da Flórida/EUA e secretário-geral da Comissão Internacional de Engenharia Agrícola e de Biociências. Destacou a habilidade adquirida pelos produtores no uso das ferramentas digitais, a união na dinâmica dos ribeirinhos na tomada de decisão e a atenção com questões de sustentabilidade. Ao mesmo tempo sugeriu “cautela” e o envolvimento de “cientistas sociais para trabalhar a introdução da nova forma de comunicação com o mundo exterior”.
O pesquisador da Agência Espacial Americana (Nasa) Douglas Morton observou que o “ciclo de inovação aconteceu muito mais rápido” entre os ribeirinhos. O membro do CCI tem acompanhado o trabalho das equipes do Semear Digital nos municípios alcançados pelas ações de inclusão socioprodutiva e digital. “Um dos grandes segredos do sucesso do projeto na introdução de tecnologias digitais em áreas de produção rural é a conexão, o entendimento e a colaboração com o povo de cada comunidade”
A programação da visita do CCI também incluiu reunião técnica no Instituto Federal do Pará, campus Breves, para conhecer os resultados desenvolvidos conjuntamente com a Embrapa, e a apresentação das unidades demonstrativas do Manejaí e de meliponários instaladas na sede da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém. Pesquisadores, analistas e técnicos da Embrapa Hortaliças, da Embrapa Uva e Vinho, da Universidade Federal de Lavras e Emater/PA também acompanharam as visitas e reuniões.

| Sobre o Semear Digital – O Centro de Ciências para o Desenvolvimento em Agricultura Digital – Semear Digital tem como objetivo atuar em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) voltadas ao incremento da produção e produtividade por meio da inclusão digital de pequenos e médios produtores rurais. Atua em dez municípios distribuídos pelos biomas brasileiros por meio de Distritos Agrotecnológicos (DATs), que são laboratórios vivos em que a equipe multidisciplinar e interinstitucional trabalha de forma colaborativa. |
Valéria Cristina Costa (MTb. 15533/SP)
Embrapa Agricultura Digital
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