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31 de agosto de 2026

Transformação digital no campo pode ampliar ganhos econômicos ao longo da cadeia de biocombustíveis

Produzir a mesma quantidade utilizando menos fertilizantes, defensivos, combustíveis ou mão de obra. Ou, mantendo a mesma quantidade de insumos, produzir mais. Essa é uma das formas mais simples de entender os ganhos de eficiência que podem resultar da transformação digital da agricultura. Mas o que acontece quando esses ganhos ultrapassam os limites da propriedade rural e chegam à indústria e a outros setores da economia?

Um estudo desenvolvido no âmbito do Semear Digital mostra que os benefícios potenciais podem ir muito além da porteira. Ao analisar a cadeia brasileira de biocombustíveis, pesquisadores identificaram que ganhos de eficiência na produção agropecuária podem se propagar pela economia e que seus efeitos são maiores e mais distribuídos quando alcançam também as etapas seguintes da cadeia produtiva.

Publicado na revista Chemical Engineering Transactions, o artigo Regional Socioeconomic Impacts of Biofuel Expansion in Brazil é assinado por pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, Embrapa Sede, Fundação Getulio Vargas (FGV), Centro Univiçosa e Universidade Purdue, nos Estados Unidos.

O trabalho parte de outro movimento importante da economia brasileira. Projeções oficiais indicam que a demanda por biocombustíveis deverá crescer cerca de 39% até 2035, impulsionada, entre outros fatores, pelo aumento do consumo de etanol de cana e milho, biodiesel e combustíveis sustentáveis para aviação.

A pergunta dos pesquisadores foi além de quanto combustível adicional será produzido. Eles quiseram saber como esse aumento de demanda repercutiria sobre produção, geração de riqueza, salários e empregos em diferentes regiões brasileiras e, em seguida, investigar como ganhos de eficiência associados à transformação digital da agricultura poderiam modificar esse cenário.

“Sabemos que as tecnologias digitais podem gerar ganhos dentro da propriedade rural. A questão que buscamos responder é o que acontece quando esses ganhos ultrapassam a porteira e a adoção das tecnologias ganha escala”, explica Geraldo Martha Jr., pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e primeiro autor do estudo.

Cartografia das conexões da economia

Para responder à pergunta, os pesquisadores construíram uma matriz inter-regional de insumo-produto da economia brasileira, tendo 2022 como ano de referência. O modelo contempla 38 setores econômicos e divide o país em 11 regiões, com atenção especial à agricultura e à produção de biocombustíveis.

A matriz funciona como uma espécie de mapa das relações de compra e venda da economia. Se a produção de etanol aumenta, por exemplo, cresce a demanda por cana ou milho, mas o efeito não termina aí. A produção agrícola demanda fertilizantes, combustível, máquinas e serviços; o transporte movimenta outros setores; a indústria compra matérias-primas e vende seus produtos. Uma mudança em um ponto dessa rede pode, portanto, produzir uma sequência de efeitos.

É como jogar uma pedra em um lago. O impacto ocorre primeiro no ponto onde ela cai, mas as ondas se propagam para muito além dele. Na economia, uma mudança em um setor também repercute sobre outros, por meio das relações de produção, renda e consumo.

“Para produzir biocombustível, a indústria compra milho, óleo de soja, cana-de-açúcar, fertilizantes e serviços. Ao mesmo tempo, vende sua produção para outros setores. A matriz de insumo-produto permite enxergar essas relações e acompanhar como uma mudança em um setor se propaga pelos demais”, explica Martha Jr.

Essa abordagem permite calcular os chamados multiplicadores econômicos. No caso brasileiro, o estudo encontrou um multiplicador médio de produção de 2,35 para o setor de biocombustíveis. Em termos simplificados, um aumento de US$ 1 bilhão na demanda final do setor está associado a US$ 2,35 bilhões em produção quando são considerados os efeitos diretos e indiretos sobre a economia.

Expansão dos biocombustíveis pode movimentar outros setores

Aplicando ao modelo a expansão de 38,8% da demanda por biocombustíveis projetada para 2035, os pesquisadores estimaram um acréscimo potencial de US$ 13,79 bilhões na produção nacional, US$ 4,32 bilhões em valor adicionado, US$ 1,98 bilhão em salários e cerca de 165 mil empregos.

“Os números não devem ser entendidos como uma previsão exata do que ocorrerá em 2035, mas como uma estimativa dos efeitos que um aumento desta magnitude poderia provocar considerando a estrutura da economia representada pelo modelo. É uma aproximação de primeira ordem, que ajuda a dimensionar os possíveis impactos sobre a economia, mas tende a representar um cenário relativamente otimista ”, pondera o autor.

Essa distinção é importante. “Os modelos existem para ampliar o nosso leque de reflexão e análise. Eles permitem identificar coisas que, sem eles, seriam difíceis de ver”, ressalta Martha Jr.

São Paulo e Mato Grosso mostram que o território importa

O estudo também revela que a expansão dos biocombustíveis pode produzir resultados diferentes dependendo de onde ela acontece.

São Paulo e Mato Grosso foram utilizados para ilustrar esse contraste. São Paulo é a principal referência nacional na produção de etanol de cana. Mato Grosso, por sua vez, reúne duas características importantes, pois é o maior produtor brasileiro de soja, cujo óleo é a principal matéria-prima do biodiesel nacional, e vem apresentando rápida expansão do etanol de milho.

Apesar da importância dos dois estados na produção de biocombustíveis, o aumento da demanda repercute de maneira diferente em suas economias. Em São Paulo, o multiplicador de produção foi estimado em 2,38, o que significa que cada US$ 1 bilhão adicional de demanda por biocombustíveis pode movimentar cerca de US$ 2,38 bilhões em produção, considerando os efeitos diretos e indiretos sobre outros setores. Em Mato Grosso, esse efeito é menor, de US$ 2,09 bilhões. A diferença também aparece na geração de nova riqueza: para cada US$ 1 bilhão adicional de demanda, o modelo estima cerca de US$ 740 milhões em valor adicionado em São Paulo e US$ 620 milhões em Mato Grosso.

Segundo Martha Jr, a explicação está na densidade das relações econômicas existentes ao redor da atividade. “As cadeias produtivas de São Paulo e Mato Grosso apresentam características distintas, inclusive quanto à densidade das relações entre os diferentes setores da economia” , comenta o autor.

Na prática, isso significa que não importa apenas quanto uma região produz, mas também com quem sua produção está conectada. Uma cadeia com fornecedores, indústria e serviços mais integrados funciona como uma rede com mais caminhos disponíveis para que o impulso econômico se espalhe.

Transformação digital amplia efeitos para além da porteira

É na conexão entre agricultura e indústria que a transformação digital ganha destaque no estudo. Tecnologias que permitem usar insumos com maior precisão, melhorar a gestão das operações e reduzir desperdícios podem aumentar a eficiência na produção de cana, milho e soja e gerar efeitos que ultrapassam os limites da propriedade rural. “Esse é o conceito de eficiência, ou seja, para o mesmo nível de produção, eu gasto menos insumos ou, para a mesma quantidade de insumos, consigo um nível maior de produção”, explica Martha Jr.

Esses ganhos podem chegar também às etapas seguintes da cadeia. Uma matéria-prima produzida com maior eficiência ou qualidade, por exemplo, pode reduzir custos e operações no processamento industrial. Para investigar esse efeito, os pesquisadores simularam diferentes níveis de eficiência associados à transformação digital, considerando ganhos de até 30% na produção agrícola e de até 10% ao longo da cadeia produtiva. Os percentuais são cenários exploratórios, e não uma previsão do impacto de tecnologias específicas.

A análise mostrou que olhar apenas para o que acontece dentro da fazenda pode subestimar o alcance econômico da digitalização. No cenário superior testado, combinando ganho de 30% na eficiência operacional agrícola com 10% ao longo da cadeia, o modelo indicou aumento de aproximadamente 3,4% no consumo intermediário agregado da economia, equivalente a cerca de US$ 50,5 bilhões. Quando os ganhos de eficiência são distribuídos de maneira mais equilibrada entre a produção agropecuária e os demais elos, seus efeitos também se espalham mais. Em um dos cenários analisados, 57% ficam na agricultura, 40% chegam à indústria e 3% aos serviços.

“Os ganhos da transformação digital na agropecuária são maximizados quando a tecnologia é coordenada ao longo de toda a cadeia produtiva, e não apenas dentro da porteira”, afirma Martha Jr. Para o pesquisador, essa perspectiva é importante porque mostra que os benefícios da digitalização não dizem respeito apenas ao produtor rural. “A indústria também pode se beneficiar de uma maneira considerável do que está acontecendo dentro da porteira”, conclui o autor.

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